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Segunda, 20 Março 2017 13:19

Devemos tomar anti-inflamatórios?

 

As dores podem ser muitas e é por vezes mais fácil tomar ‘coisas’ que nos aliviem e ajudem na recuperação. O que é que ciência tem a dizer deste assunto? O melhor é tomarmos consciência dos perigos que podemos estar a correr.

 

comprimidosOs anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) são dos medicamentos mais utilizados em todo o mundo, sendo cada vez mais frequente haver uma automedicação por parte dos desportistas, sejam eles de nível “amador” ou os de alta competição. Os AINEs são uma classe heterogénea de fármacos que, consoante o grupo, podem ter propriedades analgésicas (reduzem a dor), antipiréticas (baixam a febre) e anti-inflamatórias. Por curiosidade, e no que toca ao seu mecanismo de ação, existem basicamente dois tipos: os não-seletivos que inibem duas enzimas (COX-1 e COX-2), responsáveis pela produção de substâncias mediadores dos processos inflamatórios nos tecidos (as prostaglandinas), e os seletivos apenas para a COX-2. Pelo facto de muitos destes fármacos apresentarem uma ação analgésica e anti-inflamatória são muito utilizados por atletas, que os usam com o objetivo de prevenir prováveis dores durante o treino/prova, e outros para tentar retardar a fadiga, potenciando assim a sua performance desportiva.

 

No entanto, no existe qualquer evidência científica que os AINEs sejam vantajosos nestas situações. Pior que isso, os AINEs são fármacos que se usados incorretamente podem ser prejudiciais. As prostaglandinas têm uma função benéfica ao nível do rim, e sem entrar em grande detalhe fisiopatológico, um AINE só por si pode levar a uma diminuição da perfusão renal e quando este é associado a um exercício físico intenso e de longa duração (pior ainda se realizado sob temperaturas elevadas por aumentar a desidratação) pode causar sérios danos nos rins. Embora não seja muito frequente, há relatos de atletas que sofreram de insuficiência renal aguda durante uma maratona, problema este que pode ser mais frequente se estiver sob o efeito de AINEs. Outros efeitos adversos possíveis prendem-se por complicações gastrointestinais e existe autores a associar estes fármacos a um maior risco cardiovascular.

 

Automedicação com AINEs, sim ou não?

Por motivos de performance sim. Para o tratamento de lesões inflamatórias, o ideal seria haver sempre uma avaliação médica inicial, no entanto compreendo que isso nem sempre seja fácil. Assim o que recomendo é bom senso e o atleta avaliar a intensidade e limitação que a dor/lesão está a provocar. Perante uma dor típica inflamatória é possível (geralmente piora após repouso prolongado e pode melhorar com o exercício), numa primeira abordagem recorrer à técnica “PRICE” (protect, rest, ice, compression, elevation). Depois é preciso bom senso, tanto para a automedicação como para perceber se é necessário consultar um profissional da área. A dor pode significar muita coisa e é um sinal que não devemos desvalorizar de todo. Por fim, não esquecer que as propriedades dos AINEs não são só anti-inflamatórias, e que o seu efeito analgésico pode em alguns casos estar “esconder” uma lesão existente e a toma destes medicamentos pode fazer com que o atleta treine sem reservas e agrave uma lesão.

 

Por Arnaldo Abrantes, Médico da Athletika e Federação Portuguesa de Atletismo e Atleta Olímpico.

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